Cristianismo x Budismo, ou Amor x Autocontrole -- ou ainda notas enquanto estou lendo uma comparação de Madre Teresa com o hinduísmo Advaita

 [Escrito encaixotado dentro do limite de 5000 caracteres da descrição de vídeo do youtube. A parte 2 foi um acréscimo feito em bloco de notas para colocar nos comentários. Digo isso porque o formato muda o modo de escrita -- de escolha das palavras, do concatenamento de ideias etc.]


[Parte 1]

0) 1º devo mencionar que eu estava pra postar uma sucessão de vídeos aqui, mas ocorreu um grande imprevisto, e acabei adiando a postagem. Um dia elas aparecem, talvez.

*

Me ocorreu uma hipótese que achei interessante registrar.

1) Assisti finalmente o filme da irmã Dulce. Fiz isso porque estava lendo um livro sobre madre Teresa de Calcutá, em que a autora compara os ditos dela com ideias hindus, e achei que o filme complementaria. Pra mim elas se parecem. Eis que rendeu.


2) É interessante que é como se cada uma pegasse um trecho do Evangelho e compusesse sua obra em torno dele.


-- A irmã Dulce pegou o "Amar ao próximo como a si mesmo", e ela completou dizendo algo como: "e si mesmo grifado. Não como 'a si mesmo' que dá uma esmola, um pão, um café. Como a si mesmo a gente quer mais do que isso: quer amor, quer cuidado, quer carinho. Eu passo na rua e vejo um doente lá jogado. Eu dou um pão, dou um café e vou embora?"


-- Madre Teresa de Calcutá fez um trabalho bem similar ao de Irmã Dulce, mas é interessante que o trecho que ela usou de base foi outro. Foi o "Porque tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber. Fui estrangeiro, e me acolheram. Adoeci e cuidaram de mim" etc.


-- Salvo engano em ambas se soma o trecho de "o que fizerdes a um destes pequeninos, a mim o fizestes". Ou seja, Cristo passa a ser identificado com um desses necessitados.


-- E aí acho interessante que São Francisco de Assis faz o movimento oposto. Ele decide se tornar um desses pequeninos, um "frade menor", que significa irmão pequeno, irmãozinho. Ele não vai ter como meta acolher os necessitados, ele próprio vai ser um necessitado por amor a Cristo, e os que ajudarem a ele, ajudam a Cristo.


3) Lembrei do Gugu falando, em "sabedoria e eternidade", que um pintor que quer pintar um ícone sacro de verdade precisa ter como que uma intuição que Gugu chama de "intuição do Real". Algo incognoscível, que o pintor chamará Jesus Cristo, diante do qual, é preciso abdicar de todo o conhecimento que o pintor tem da pintura e de todo o conhecimento que tem de Jesus Cristo, para se abrir a essa intuição original e daí tentar representá-la com o máximo de recursos e cuidados que for capaz. Gugu compara isso à nuvem do não saber (é assim mesmo? não sei)


3a) Ele diz também que o pintor de arte sacra pode conseguir isso com uma habilidade específica, mas que o santo teria essa intuição no todo da sua vida.


4) Lembrei também do "arte cavalheiresca do arqueiro zen", e a experiência é bem similar, apesar de que o objeto sagrado que se está considerando é outro. No caso, é como que um "esvaziamento do eu".


5) Lembrei ainda do Olavo, no livro de ensaios de por volta dos anos 80 publicado há poucos anos, em que ele comenta sobre o modo como ele entende o 1º e o 2º mandamentos de Cristo, adaptando-os à busca e oferecimento da Verdade de modo incessante.


5a) Não entendo dessas coisas, mas me ocorreu que, talvez, todo o poder do Olavo de converter tanta gente ao catolicismo tenha vindo desse fato, quer dizer, é como se ele estivesse vivendo numa regra pré-religiosa. Os 3 santos que mencionei no começo vivem de modo integral o que Olavo, o pintor e o arqueiro vivem de modo aplicado. Olavo mesmo diz algo como: "o escritor é aquele que é plenamente sincero quando escreve, e o santo é o que o é o tempo todo". E sinceridade aqui não significa "o super sincero", o cara que fala qualquer bosta que vem à mente, mas a raiz da sinceridade do Olavo é a obediência plena a essa adaptação dos 1º e 2º mandamentos, ou seja, a integração entre busca do conhecimento e busca por Deus.


***

6) Na soma disso tudo, isso me deixou como que com uma "vaga impressão", também inspirada pelo Gugu (quando ele fala de "conselhos", como na aula sobre o peregrino russo), de que uma religião talvez seja um conjunto de possibilidades que surge justamente da tentativa de viver algum fragmento da religião, e ajustar toda a vida para refletir esse fragmento.


7) Isso se soma com a sensação de que o cristianismo parece estar diretamente vinculado ao "Amor", enquanto que o budismo eu chamaria de "Autocontrole", e o hinduísmo me cheira a "Não-ação".


7a) Descrevendo melhor: parece que surge alguma coisa para você que você percebe como a coisa mais importante de toda a sua existência. Todas as outras coisas morrem diante dela, só ela importa. Pra madre Teresa e Irmã Dulce foram os doentes, para São Francisco foi a pobreza. 


-- Quando isso acontece, é como quando você tem uma atividade urgente pra entregar e deixou pro último momento: aquela atividade se torna prioritária na sua mente e isso gera uma imensa energia capaz de te dirigir para focar e completar com o máximo de força que puder até terminar o prazo. Acredito que a diferença é que essa priorização surge de uma preocupação, de um medo, algo negativo, enquanto que o sentimento religioso nasce do Amor, uma positividade, e por isso mesmo consegue durar. Mas me parece o mesmo mecanismo.


[Continua nos comentários]


[Parte 2]

-- Quando esse fenômeno acontece, esse "alguma coisa", essa atividade, ela mesma é Jesus Cristo para o sujeito, mesmo que, a princípio, ele não note.


-- Suspeito que o restante da vida do sujeito vai ser como que a necessidade de ajuste, com sua vida real, com a própria igreja e a comunidade, para conseguir manter e expandir essa regra nas condições concretas. Também, colocado de outro modo, vai ser o processo de descoberta de que esse "alguma coisa" é idêntica a Jesus Cristo e, na verdade, como é e o que é a natureza de Jesus Cristo.


-- Acho que, no caso de um ofício, ou seja, de uma atividade de integração parcial, deva ter algum meio de como que generalizar essa regra particular, sei lá como. Com Olavo era a sabedoria, com o pintor é a pintura sacra etc., talvez haja um modo de generalizar, mas não faço a menor ideia.


*


7b) Budisticamente, por sua vez, a coisa é absurdamente diferente. Eu não chamaria de Amor, apesar de haver algumas correntes budistas que tentem dar esse tom. Eu chamaria de Autocontrole. Porque a essência do método budista parece ser ativamente posicionar e estacionar a consciência numa posição em que ela é capaz de observar o surgimento dos impulsos do corpo e da mente e, na medida em que os conheça, torna-se capaz de reordenar as suas ações. (O que, suspeito eu, de mais próximo tem disso no cristianismo, até onde vi, é o discernimento de espíritos de Santo Inácio de Loyola, mas falar disso fica pra outro dia.)


-- Isso, por si mesmo, não parece nem bom nem mal, mas é. Porque, assim que o sujeito consegue posicionar a consciência nessa posição, o que ele experimenta é uma paz inigualável. Isso porque toda falta de paz nasce da inquietude da mente: as preocupações, as angústias, os medos, as ansiedades, e a expectativa de que sentir essas coisas é necessário para resolver os problemas. Dito de outro modo: no meu palpite, Sidarta Gautama virou Buda não quando resolveu o problema da velhice, da doença e da morte, mas sim quando resolveu sua preocupação incessante sobre velhice, doença e morte. Ou seja, a solução do sofrimento é a abdicação da preocupação com o sofrimento. É meio maluco dito assim, mas o resultado é realmente uma felicidade inigualável.


-- No cristianismo essa felicidade também existe, mas de outro modo. Quando a regra se torna consciente, a pessoa vê todas as preocupações de sua vida "ficarem pra depois", serem esvaziadas de importância. Só sobra uma preocupação, que é com o objeto de devoção, e essa preocupação não brota de uma sensação negativa (preocupação, angústia), mas de uma sensação positiva (Amor), então a pessoa experimenta algo muito similar à paz budista, apesar de por outro mecanismo mental.


-- Enfim, quando o sujeito experimenta essa tal paz budista, o que acontece é que ele vê, ao mesmo tempo, nirvana e samsara. Samsara é tudo o que nasce da ausência de paz, nirvana é a visão desde esse ponto de vista da paz. É também possível perceber que toda ação, não só humana, brota da busca da felicidade, ou da fuga do sofrimento. A busca do prazer e a fuga da dor, por exemplo. Mas o prazer é temporário, e a dor é em certa medida inevitável. Mas ambas, a busca do prazer e a fuga da dor encontram, na paz da mente, a sua fonte verdadeira e permanente. Assim, o Bem e o "Mal" ficam claríssimos: Bem é tudo aquilo que aproxima os seres dessa paz, e Mal é tudo aquilo que afasta.


-- Suspeito que, daí, as "artes zen" como a do arqueiro, ou afins, partam, então, desse tipo de princípio. Ou seja, você pratica o tiro com flechas pra tentar atingir um estado de consciência no estado prévio à mente, para ser capaz de agir como que "no automático": deixar tanto o seu corpo quanto sua mente sob controle desse lugar mais interior do que ambos.


7c) Do hinduísmo eu tenho pouquíssima experiência, mas ele realmente me cheira à ideia de "não-ação". A não-ação é quase irmã do autocontrole. Não há nada a ser feito, nada a ser atingido, porque tudo já está nesse estado prévio ao corpo e à mente. O desprendimento do corpo e da mente gera o encontro e permanência desse estado -- e daí os vários métodos de "yoga". E aí não há mais nada a ser feito, até porque na Índia já existe muito bem firmado a ideia do mendigo andarilho, então o sujeito só segue carreira, ou como mendigo explicitamente, ou fundando um Ashram. Mas o princípio é o mesmo: o Bem vem desse estado de paz adquirido pela permanência no estado prévio à mente, e o Mal é o que afasta os seres desse estado.


E por hoje é só, pessoal.


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