Hipóteses sobre discernimento de espíritos

 [Parte 1]

0) Vou ficar escrevendo posts a partir desse limite de 5000 caracteres, porque me obriga a me limitar. Mas tenham sempre em mente que tudo o que eu falo são só hipóteses.

*

1) Me parece que essa questão de "discernimento de espíritos" tem como ser comparada a um fenômeno natural mais comum, assim como eu comparei uma suposta experiência de base do cristianismo, no post anterior, que chamei de "Chama do Amor", com a priorização que ocorre quando você percebe que tem algo urgente pra entregar, e o budismo com um ato de consciência que mantém como que uma retomada da concentração.

2) Pra quem não sabe, a expressão "discernimento de espíritos" parece que foi 1º usada por São João Evangelista nas suas cartas, mas ficou famosa pelo uso de Santo Inácio de Loyola nos seus Exercícios Espirituais.

3) Essa expressão me parece ser equivalente a quando você deseja fazer algo. Digamos que você quer ser um grande escritor. Se você quer de verdade, imediatamente sua mente vai começar a sugerir ações que correspondem a um crescimento nesse modo de vida -- desde escrever, ler livros, comparar uns livros com outros pra captar técnicas, separar tempo pra exercitar etc. -- e ações que atrapalham esse processo -- o que, dependendo do seu modo de enxergar a vida, pode incluir até sua família e filhos (em tais ou quais circunstâncias) ou seu emprego.

-- Não cheguei a concluir o livro do Santo Inácio, mas, me parece que quando ele fala de "duas bandeiras", ele está falando disso, com a diferença, a princípio, que o que se está escolhendo seguir é a religião, ou Cristo, e o oposto à religião é o diabo. E, do mesmo modo que na escrita, seguir a religião é um crescimento, enquanto que o diabo é afastar-se, reduzir-se.

-- Mas, no geral, nenhuma habilidade humana, nenhuma ciência, nenhuma arte abrange uma vida inteira. A escrita, como a programação, a neurociência ou a física etc., só pode ser uma área da sua vida. Em certo sentido, a poesia, não enquanto seu produto escrito ou falado, mas enquanto modo de olhar a vida com aceitação e atenção, pode ser algo mais abrangente, assim como a filosofia, enquanto busca não só de olhar pra vida com aceitação e atenção, mas com uma busca ativa de entendimento, também pode ser algo mais abrangente. É possível, nesses sentidos específicos, aplicar esse modelo de "duas bandeiras" tanto para ser poeta quanto para ser filósofo e, de certo modo, abranger a vida toda.

-- Mas nem a poesia nem a filosofia abrangem a realidade diante da morte. Eles enfatizam apenas as partes da existência do sujeito que cabem na vida. Já a religião é aquilo que abrange tanto a vida quanto a morte -- outra maneira de dizer é que se um poeta ou filósofo, nesses sentidos que falei, podem ter uma felicidade que o homem que não é nenhum dos dois consegue ter, o religioso tem uma felicidade ainda mais inabalável

[Não sei se o termo certo seria "felicidade", mas sigam comigo o raciocínio]


4) A ideia dos mandamentos no cristianismo me parece ser um modo de crescimento gradativo. Esse crescimento não me parece ter a intenção de ser de ordem moral, mas sim de consciência. Porque os atos pecaminosos são listados justamente porque nós tendemos a fazê-los sem sermos capazes de autocontrole, do contrário, não seria preciso listar como mandamentos.

-- Esses atos se tornam um meio através do qual o sujeito vai gradualmente tomando consciência não do pecado, mas das inclinações internas que o dirigem para o pecado. Não sei se vocês já notaram os momentos em que iniciam uma ação, uma fala, e, simplesmente, não conseguem mais parar pela metade. Como alguém que está de dieta quando vê algo saboroso e imediatamente não consegue recuar, ou um preguiçoso que parece que tem uma pedra em cima de si que o impede de levantar e fazer o que quer fazer.

-- O que gera o movimento, ou a ausência de movimento, é o que se pode chamar "espírito". Espírito não significa uma alma penada rondando por aí, mas vontades ou intenções que se apossam de um sujeito e o levam a um caminho ou outro. Em alguma medida são intenções consentidas, em outra medida se cristalizaram em hábitos.

-- Toda a nossa vida, na verdade, é uma cristalização de incontáveis hábitos e microhábitos que nem suspeitamos ter, mas que surgiram em algum momento na nossa vida. Desde o modo de levantar, de sentar, de andar, nosso gosto por comida x e desinteresse por comida y, por uma música e não outra etc., tudo isso surgiu, em última instância, de "espíritos".

-- Eu sei nomear, por exemplo, dois espíritos. Dá pra perceber o momento em que ele está atuando em alguém. Um eu chamo de "espírito de zombaria", que é quando você sente um desejo de consumir um conteúdo só por considerá-lo ruim, só pra zombar. Existe um outro, que é similar, mas muito mais grave, que é o "espírito de malícia": é quando o sujeito sente uma curiosidade por ver os defeitos do outro, sente um prazer voluptuoso ao descobri-los, porque quer provar que ninguém é perfeito. Suspeito até que um pode evoluir no outro, 


[Parte 2]

mas não sei. (Aliás, lembram do "espírito da 5ª série" do brasileiro? É um nome bem conveniente)

-- Esses espíritos, portanto, não são necessariamente os hábitos nominalmente falando, mas impulsos que se espalham em uma rede de hábitos.

-- Voltando à questão dos mandamentos, me parece que funciona assim: ao enfatizar quais ações são erradas, o sujeito começa a prestar atenção nessas ações. Primeiro, após cometê-las. Depois, pelo processo de confissão e perdão, tenta evitá-los, passando, gradualmente, a perceber os momentos em que surge o impulso para os atos. Aí é o ganho de consciência gradativa.

-- Se ele mantém esse processo, esse ganho de consciência vai crescer não apenas para os atos pecaminosos, mas para os atos em si da vida do sujeito. Ele vai perceber mais claramente suas intenções diante das coisas. Na doutrina dos pecados, no cristianismo, isso se associa, por exemplo, com ir desde os pecados mais grosseiros e carnais, ou mortais, para evoluir para os pecados da consciência, mais sutis e difíceis de discernir. Daí de um lado tem os pecados veniais e a doutrina dos pecados capitais, cuja intenção é desenvolver a consciência do sujeito passo a passo.

-- Eventualmente, também associado à prática dos demais aspectos da religião, me parece que o sujeito pode ter a intuição de que "todas as suas ações são erradas". Isso, eu acho, é a intuição do pecado original. Toda ação só vale alguma coisa se é feita por causa de Deus e para Deus, ou seja, para cumprir a sua Vontade conscientemente. Mas só é possível conceber o que seja a Vontade de Deus justamente passando por esse processo de purificação da consciência, que é também o discernimento desses espíritos que movem nossas ações, ou seja, essas intenções/sugestões que surgem e nos movem sem que, muitas vezes, consigamos sequer parar.


5) Isso é a tal da liberdade dos santos, como Gugu gosta de falar. Nós achamos que somos livres, ou, alguns, acham que somos totalmente determinados. Esses últimos acham que somos mais que cachorrinhos de Pavlov, que só obedecem a estímulos e reagem de acordo. A verdade é que estamos entre um e outro.

-- A liberdade é o que acontece quando você consegue perceber os fatores que movem sua ação. A princípio, ela parecia uma ação espontânea. Querer pegar todas as garotas da festa para competir com os amigos, por exemplo, ou beber mais e se mostrar sóbrio etc.. De repente você vê que na verdade suas ações brotaram de um desejo de competição, e agora você tem a opção de fazer ou não, e, se fizer, fazer pela intenção que você queira colocar no ato. Antes de tomar consciência, havia menos escolha de atos, e menos escolha de intenções no ato. Você pode fazer a mesma coisa que faria antes, mas, antes, você fazia, digamos, por um desejo cego de competição; agora você pode fazer porque, por exemplo, quer observar como as pessoas reagem e fazer um poema a respeito da condição humana, ou decidir se aquela vida é adequada ou não, ou para experimentar os sabores das bebidas etc. etc., em suma, pode-se fazer a ação pelo motivo que você for capaz de imaginar.

-- Daí que, quanto menos consciência desses impulsos internos, menor a capacidade tanto de escolha de atos quanto de escolha de intenções.

-- Esse "salto qualitativo" da consciência dos pecados para a consciência de todos os atos como errados é, digamos, como sair da mera capacidade de reconhecer músicas pra ser capaz de reconhecer acordes ou até notas musicais. Também se pode comparar a sair da memorização de palavras pra o ato de fluência e intenção ativa de aprendizado no idioma. Mas, aqui, o salto é para a consciência dos espíritos e das intencionalidades, aumentando imensamente a velocidade desse ganho de liberdade.

-- Essa me parece ser a intenção do "discernimento de espíritos".

[É assim mesmo? Não sei]


6) Quando digo que isso está associado com a felicidade é porque esse ganho gradual de liberdade que vem da consciência dos espíritos gera como que uma alegria. Você percebe que antes era um prisioneiro, e agora pode escolher à vontade as suas ações e a sua vida.

-- É essa felicidade, aliás, que substitui o prazer que viria dos atos feitos inconscientemente e que foram removidos ou ajustados, por serem paixões desordenadas. (E paixão desordenada significa justamente atos movidos mais por espíritos do que pela vontade consciente.)


***
Acho que há muito mais a escrever sobre isso, além de estar mal escrito, mas, por ora, é o que tem pra hoje.

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